
Para quem não sabe, o que faz a Cáritas?
Diria de uma forma simplista que a Cáritas Diocesana do Porto é uma instituição católica com 70 anos de existência e uma ação distribuída por 22 vigararias e 477 paróquias. Estamos a falar de 26 cidades, a maioria do distrito do Porto, e três milhões de pessoas que são ajudadas. A função principal da Cáritas é ser o agente dinamizador de toda a ação sócio-caritativa da diocese, isto é, agimos e intervimos em conjunto com outras entidades, criamos uma rede com várias instituições que estão no terreno a prestar um serviço muito válido de ajuda às famílias mais carenciadas. Não faz sentido estarmos no terreno a canibalizar outras instituições que já prestam um serviço bom, tentamos criar uma rede o mais sólida possível para responder às necessidades que vão sendo detetadas pelas paróquias com quem trabalhamos.
Que necessidades são essas?
Diretamente ou indiretamente, intervimos em várias áreas: no universo alimentar, fazemos chegar a famílias, através de cabazes de emergência, toneladas e toneladas de alimentos; em média, por ano, doamos entre 25 a 30 mil peças de roupa e calçado; no que toca a educação, doamos 80 mil peças de material escolar a essas mesmas famílias. No entanto, entendemos que a área mais crítica era a área da saúde.
Porquê?
Quando esta direção chegou, há três anos, a primeira coisa que fizemos foi definir o papel da Cáritas na diocese. Para isso, ouvimos quem está no terreno, definimos um plano estratégico e um conjunto de prioridades. A área da saúde foi entendida como algo absolutamente fundamental. Todos elogiamos, e bem, o Serviço Nacional de Saúde, que, comparado com outros países, é extraordinário, mas falha noutros domínios complementares. Se um idoso ou uma família carenciada precisar de um medicamento, de uns óculos, de um tratamento dentário ou de material ortopédico, pode nunca chegar a ter resposta ou, em alternativa, esperar anos. Quantos e quantos idosos têm os mesmos óculos seis ou sete anos? Já não falo de tratamentos dentários, que podem esperar uma vida toda. Há famílias que podem esperar até dois anos por uma cama articulada. As pessoas são operadas, saem do hospital, precisam de ajuda imediata e, para isso, aquilo que fizemos foi criar um fundo da saúde para a Diocese do Porto. Achávamos que era um fundo ambicioso com 50 mil euros, mas que rapidamente se esgotou em meia dúzia de meses. Sentimos que era necessário prestar um apoio maior às essas famílias nesta área. Neste momento temos 600 equipamentos ortopédicos cedidos em 19 das 22 vigararias, pois outro grande desafio que nos lançaram, quando assumimos este mandato, foi que a Cáritas devia sair da cidade do Porto e assumir, definitivamente, uma dimensão diocesana.
Têm conseguido?
Penso que sim. Voltando à área da saúde, neste momento estamos a apoiar 600 famílias diretamente, mas entendemos, a determinada altura, que estes apoios eram insuficientes, porque para todos os efeitos cedemos uma cadeira de rodas ou uma cama articulada a uma família, mas ela aparentemente continua ao abandono, sem nenhum tipo de acompanhamento e isso preocupa-nos. Há dois anos criámos com a Universidade Católica do Porto um programa onde temos 30 profissionais na área da saúde, entre alunos finalistas do curso de enfermagem e professores, que prestam esse acompanhamento, visitam famílias, telefonam-lhes, fazem um diagnóstico exato das suas fragilidades para que a Diocese, como um todo, e as suas instituições possam agir em conformidade. Entendemos que tem de ser assim porque, em abono da verdade, se elogiamos muito o nosso SNS, em tudo o que lhe é complementar o Estado falha e falha redondamente. Estamos de forma reiterada a cumprir o papel do Estado, porque ele definitivamente não cumpre a sua função. Todos estes apoios deveriam ser prestados pelo Estado e quando falo do Estado não falo do Governo, falo do Estado central, das autarquias, numa lógica abrangente. É exigido a instituições como a nossa um esforço muito significativo, o que procuramos fazer é atuar onde todos os outros falham. Somos uma instituição de retaguarda para situações de emergência, é para isso que existimos e essa é a génese em todas as Cáritas espalhadas pelo mundo.
Source: observador.pt
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